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CONFRONTAÇÃO COM A BÍBLIA

  • svdee1
  • há 5 dias
  • 8 min de leitura

ENTENDIMENTOS

Os povos têm ideias bem diferentes sobre a Criação, conforme seu desenvolvimento intelectual. A razão amparada pela Ciência reconhece o equívoco de algumas dessas teorias.

Os Espíritos autores apresentam uma teoria que é partilhada por homens mais esclarecidos.

A objeção que se pode fazer a ela é a de contradizer a bíblia. Mas, examinando seriamente, verifica-se que é uma contradição aparente, que decorre de se interpretar ao pé da letra o que tem sentido alegórico nos textos sagrados.

Adão como primeiro homem:

Para Kardec, a existência do homem era anterior à época em que se dizia que ela havia começado e derivava de diversas origens. Adão deveria ter povoado uma região ainda desabitada.

O Movimento da Terra:

Apesar de contrariar os textos sagrados e de todas as perseguições a que esta teoria da Ciência deu ensejo, a Terra gira.

Criação do Mundo em Seis Dias, Há 4.000 a.C.

A história da formação do globo terráqueo está escrita no mundo fóssil, que nos mostra que os seis dias da criação indicam outros tantos períodos, cada um de, talvez, muitas centenas de milhares de anos.

Isso não é um sistema, uma doutrina, uma opinião isolada; é um fato tão certo como o do movimento da Terra e que a Teologia não pode negar.

Ordem da Criação dos Seres Vivos

Escavando a Terra, a Ciência descobriu em que ordem os seres vivos lhe apareceram na superfície, o que está de acordo com o que diz a Gênese. A discordância é a de que essa obra, em vez de ter sido executada milagrosamente por Deus em algumas horas, se realizou, sempre pela Sua vontade, mas obedecendo às leis da Natureza, em alguns milhões de anos.

Moisés

A Ciência concorda com Moisés no tocante ao homem como o último ser vivo a ser criado. Todavia, Moisés indicava que a formação do mundo foi no ano de 4.654 a.C., o do Dilúvio Universal.

A Geologia, à época de Kardec, dizia que esse grande cataclismo foi anterior ao aparecimento do homem, porque até então, não se tinha encontrado, nas camadas primitivas, traço algum de sua presença, nem dos animais de igual categoria.

Mas, Kardec sempre deixava aberta a possibilidade de novas descobertas modificarem os entendimentos. Se isso ocorresse em relação à anterioridade da raça humana, teria-se de reconhecer que o texto bíblico foi escrito em sentido figurado.

Também seria preciso determinar se falava-se do mesmo cataclismo geológico. De qualquer modo, as camadas fósseis é que iriam provar o fato.

O raciocínio de Kardec era: Se o homem tivesse aparecido na Terra em 4.000 a.C. e se, 1.650 anos mais tarde, toda a raça humana tivesse sido destruída com exceção de uma só família, o povoamento da Terra dataria apenas de Noé, ou seja, de 2.350 a.C. Porém, quando os hebreus emigraram para o Egito, no décimo oitavo século a.C., encontraram esse país muito povoado e já bastante adiantado em civilização. A História prova que, nessa época, as Índias e outros países também estavam em ascenção, sem falar de certos povos, que remontam a uma época ainda muito mais antiga. Então, precisaria que do vigésimo quarto ao décimo oitavo século a.C. (600 anos), não somente a posteridade de um único homem houvesse podido povoar todos os imensos países então conhecidos, suposto que os outros não o fossem, mas também que, nesse curto lapso de tempo, a espécie humana houvesse podido elevar-se da ignorância absoluta do estado primitivo ao mais alto grau de desenvolvimento intelectual, o que é contrário a todas as leis antropológicas. A diversidade das raças também corroboraria essa opinião, pois como os descendentes de Noé, em poucos séculos, teriam se transformado a fim de formar raças tão distintas?

Para Kardec, o dilúvio de Noé foi uma catástrofe parcial, confundida com o cataclismo geológico.


Apesar das discrepâncias apontadas, a bíblia não é um erro. Os homens é que se equivocam ao interpretá-la.

Ela teria sido escrita ao estilo oriental, totalmente alegórico, comum aos livros sagrados dos povos.

Reconhecer a Ciência nas leis da Natureza não deixa Deus menor, nem menos poderoso. A obra continua sendo sublime mesmo sem ter sido instantânea. É preciso reconhecer a onipotência divina nas leis eternas que regem os mundos.

A Ciência, longe de minimizar a obra divina, mostra-a sob aspecto mais grandioso e mais conforme com as noções que temos do poder e da majestade de Deus, pelo próprio fato de não ter havido derrogação das leis da Natureza.

As ideias religiosas se engrandecem ao caminhar de par com a Ciência, pois não ficam vulneráveis ao ceticismo. (1)


FONTES

Livro dos Espíritos, Parte Primeira, Das Causas Primárias, Capítulo III – Da Criação

CONSIDERAÇÕES E CONCORDÂNCIAS BÍBLICAS CONCERNENTES À CRIAÇÃO

(1) 59. Os povos hão formado idéias muito divergentes acerca da Criação, de acordo com as luzes que possuíam. Apoiada na Ciência, a razão reconheceu a inverossimilhança de algumas dessas teorias. A que os Espíritos apresentam confirma a opinião de há muito partilhada pelos homens mais esclarecidos.

A objeção que se lhe pode fazer é a de estar em contradição com o texto dos livros sagrados. Mas, um exame sério mostrará que essa contradição é mais aparente do que real e que decorre da interpretação dada ao que muitas vezes só tinha sentido alegórico.

A questão de ter sido Adão, como primeiro homem, a origem exclusiva da Humanidade, não é a única a cujo respeito as crenças religiosas tiveram que se modificar. O movimento da Terra pareceu, em determinada época, tão em oposição às letras sagradas, que não houve gênero de perseguições a que essa teoria não tivesse servido de pretexto, e, no entanto, a Terra gira, malgrado aos anátemas, não podendo ninguém hoje contestá-lo, sem agravo à sua própria razão.

Diz também a Bíblia que o mundo foi criado em seis dias e põe a época da sua criação há quatro mil anos, mais ou menos, antes da era cristã. Anteriormente, a Terra não existia; foi tirada do nada: o texto é formal. Eis, porém, que a ciência positiva, a inexorável ciência, prova o contrário. A história da formação do globo terráqueo está escrita em caracteres irrecusáveis no mundo fóssil, achando-se provado que os seis dias da criação indicam outros tantos períodos, cada um de, talvez, muitas centenas de milhares de anos. Isto não é um sistema, uma doutrina, uma opinião insulada; é um fato tão certo como o do movimento da Terra e que a Teologia não pode negar-se a admitir, o que demonstra evidentemente o erro em que se está sujeito a cair tomando ao pé da letra expressões de uma linguagem freqüentemente figurada. Dever-se-á daí concluir que a Bíblia é um erro?

Não; a conclusão a tirar-se é que os homens se equivocaram ao interpretá-la.

Escavando os arquivos da Terra, a Ciência descobriu em que ordem os seres vivos lhe apareceram na superfície, ordem que está de acordo com o que diz a Gênese, havendo apenas a notar-se a diferença de que essa obra, em vez de executada milagrosamente por Deus em algumas horas, se realizou, sempre pela sua vontade, mas conformemente à lei das forças da Natureza, em alguns milhões de anos. Ficou sendo Deus, por isso, menor e menos poderoso? Perdeu em sublimidade a sua obra, por não ter o prestígio da instantaneidade? Indubitavelmente, não. Fora mister fazer-se da Divindade bem mesquinha idéia, para se não reconhecer a sua onipotência nas leis eternas que ela estabeleceu para regerem os mundos. A Ciência, longe de apoucar a obra divina, no-la mostra sob aspecto mais grandioso e mais acorde com as noções que temos do poder e da majestade de Deus, pela razão mesma de ela se haver efetuado sem derrogação das leis da Natureza.

De acordo, neste ponto, com Moisés, a Ciência coloca o homem em último lugar na ordem da criação dos seres vivos. Moisés, porém, indica, como sendo o do dilúvio universal, o ano 4.654 da formação do mundo, ao passo que a Geologia nos aponta o grande cataclismo como anterior ao aparecimento do homem, atendendo a que, até hoje, não se encontrou, nas camadas primitivas, traço algum de sua presença, nem da dos animais de igual categoria, do ponto de vista físico. Contudo, nada prova que isso seja impossível. Muitas descobertas já fizeram surgir dúvidas a tal respeito. Pode dar-se que, de um momento para outro, se adquira a certeza material da anterioridade da raça humana e então se reconhecerá que, a esse propósito, como a tantos outros, o texto bíblico encerra uma figura. A questão está em saber se o cataclismo geológico é o mesmo a que assistiu Noé. Ora, o tempo necessário à formação das camadas fósseis não permite confundi-los e, desde que se achem vestígios da existência do homem antes da grande catástrofe, provado ficará, ou que Adão não foi o primeiro homem, ou que a sua criação se perde na noite dos tempos. Contra a evidência não há raciocínios possíveis; forçoso será aceitar-se esse fato, como se aceitaram o do movimento da Terra e os seis períodos da Criação.

A existência do homem antes do dilúvio geológico ainda é, com efeito, hipotética. Eis aqui, porém, alguma coisa que o é menos. Admitindo-se que o homem tenha aparecido pela primeira vez na Terra 4.000 anos antes do Cristo e que, 1.650 anos mais tarde, toda a raça humana foi destruída, com exceção de uma só família, resulta que o povoamento da Terra data apenas de Noé, ou seja: de 2.350 anos antes da nossa era. Ora, quando os hebreus emigraram para o Egito, no décimo oitavo século, encontraram esse país muito povoado e já bastante adiantado em civilização. A História prova que, nessa época, as Índias e outros países também estavam florescentes, sem mesmo se ter em conta a cronologia de certos povos, que remonta a uma época muito mais afastada. Teria sido preciso, nesse caso, que do vigésimo quarto ao décimo oitavo século, isto é, que num espaço de 600 anos, não somente a posteridade de um único homem houvesse podido povoar todos os imensos países então conhecidos, suposto que os outros não o fossem, mas também que, nesse curto lapso de tempo, a espécie humana houvesse podido elevar-se da ignorância absoluta do estado primitivo ao mais alto grau de desenvolvimento intelectual, o que é contrário a todas as leis antropológicas.

A diversidade das raças corrobora, igualmente, esta opinião.

O clima e os costumes produzem, é certo, modificações no caráter físico; sabe-se, porém, até onde pode ir a influência dessas causas. Entretanto, o exame fisiológico demonstra haver, entre certas raças, diferenças constitucionais mais profundas do que as que o clima é capaz de determinar. O cruzamento das raças dá origem aos tipos intermediários. Ele tende a apagar os caracteres extremos, mas não os cria; apenas produz variedades. Ora, para que tenha havido cruzamento de raças, preciso era que houvesse raças distintas. Como, porém, se explicará a existência delas, atribuindo-se-lhes uma origem comum e, sobretudo, tão pouco afastada? Como se há de admitir que, em poucos séculos, alguns descendentes de Noé se tenham transformado ao ponto de produzirem a raça etíope, por exemplo? Tão pouco admissível é semelhante metamorfose, quanto a hipótese de uma origem comum para o lobo e o cordeiro, para o elefante e o pulgão, para o pássaro e o peixe. Ainda uma vez: nada pode prevalecer contra a evidência dos fatos.

Tudo, ao invés, se explica, admitindo-se: que a existência do homem é anterior à época em que vulgarmente se pretende que ela começou; que diversas são as origens; que Adão, vivendo há seis mil anos, tenha povoado uma região ainda desabitada; que o dilúvio de Noé foi uma catástrofe parcial, confundida com o cataclismo geológico; e atentando-se, finalmente, na forma alegórica peculiar ao estilo oriental, forma que se nos depara nos livros sagrados de todos os povos. Isto faz ver quanto é prudente não lançar levianamente a pecha de falsas as doutrinas que podem, cedo ou tarde, como tantas outras, desmentir os que as combatem. As idéias religiosas, longe de perderem alguma coisa, se engrandecem, caminhando de par com a Ciência. Esse o meio único de não apresentarem lado vulnerável ao cepticismo. (A)




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